Com “Tetro“, Francis Ford Copolla retorna ao topo de sua própria possibilidade criativa, e o faz em grande estilo. Após “Youth without youth“, seu primeiro filme em uma década, e filmando seu primeiro roteiro original desde “A conversação”, de 1974, o cineasta apresenta sua obra mais ousada e ambiciosa desde “Apocalipse Now” (1979). Sendo este, definitivamente o mais pessoal, maduro e sinceramente planejado, quadro a quadro.
Através da história do caçula que após 10 anos vai a procura do irmão mais velho, que ao tirar 1 ano sabático para escrever e se encontrar consigo mesmo, nunca mais deu notícias no tempo em que esteve ausente. A volta do irmão caçula, também em busca de alguém que nem ao menos sabem quem é, trás lembranças e revela segredos de família que se pretendiam permancer escondidos.
Copolla extrapola os limites do drama familiar clássico. Ao se apropriar de sua estrutura, recheado-a de rivalidade familiar, o diretor alcança a sinceridade reservada somente àqueles que através da necessidade de revelar e contar algo, são capazes de alcançar. Necessidade esta, que naturalmente impulsiona o diretor a revelar o sentido primordial da verdadeira arte de fazer filmes, a de contar histórias que não poderiam ser contadas através de qualquer outro meio, que não o cinema. Destaque para a brilhante atuação de Vincent Gallo (cujo pai na vida real, assim como o Tetro do filme, também foi um regente de sucesso).
Se é que ainda não foi lançado na América, o filme foi inadmissivelmente ignorado pela Academia, já que esta não o indicou a sequer um Oscar para a premiação ocorrida no dia 7 de março. “Tetro” foi auto-financiado pelo diretor e sua histórica produtora “Zoetrope” e nem ao menos tem previsão de estréia no Brasil. Filmado magistralmente em PB, nas ruas de Buenos Aires, “Tetro” promete ser a volta às origens de um gênio, que após tanto tempo afastado de si mesmo, se reencontra na simplicidade de sua personalidade mais profunda.
Assim como em seu filme de estréia, o independente "Foot fistt ways", de 2007, Jody Hill (diretor e roteirista) explora um universo muito peculiar e contemporâneo, extraindo a comicidade das situações e personagens mais ordinárias.
Se no primeiro filme, tínhamos como pano de fundo a escola de taw ken do suburbana e decadente, em "Observe & report" temos o universo dos shoppings centers e todo seu impulso pelo consumo e ostentação da imagem. A começar pelo protagonista Ronnie, interpretado pelo rei da comédia atual, Seth Rogen. Um segurança de shopping center que adora armas, sofre de transtorno bipolar, possue uma mãe alcoólatra e sonha em se tornar um policial, assim como nos filmes.
Todas essas qualificações poderiam caminhar para um dramalhão cabeça, cheio de lições de moral, ou a mais uma comédia imbecil protagonizada por Rob Shneider, mas Jody Hill trata todos os personagens com tanto respeito, que acaba se revelando sensível aos dramas do norte-americano médio, tão caricaturizado como looser pelo cinema hollywoodiano.
Ronnie é o segurança do shopping que após o "ataque" de um tarado que adora mostrar sua "arma" para as clientes do shopping, vê aí sua chance de ser "alguém", prendendo tal ameaça. Temos então Ronnie e sua gangue de seguranças (personagens ótimas que enriquecem muito a trama) confrontando a policia de verdade, personificada na pele de Ray Liotta, policial sério e desbocado que não poupará esforços para tirar Ronnie de seu caminho.
Apresenta-se assim, uma verdadeira reinvenção do mito do herói, uma adaptação aos dias atuais daquele que decide enfrentar seu destino e viver sua vida plenamente. Isso tudo com cameras lentas belíssimas e uma trilha sonora impecável, símbolo de uma geração pré-internet, que cresceu nos anos 90.
Através de seu olhar sobre esse universo, Jody Hill nos convida a rir de nós mesmos, para que não nos levemos tão a sério, já que no fim do filme, Ronnie, o herói, resolve enfrentar sua realidade, e encarar de frente seus problemas, temos uma sequência de planos onde o "quase policial" termina um "namoro", se reconcilia com o amigo que o traiu, conhece o verdadeiro amor, atira no peito do tarado (uma das cenas mais chocantes e ousadas dos últimos tempos), que corria nu através da praça de alimentação ao som de "where is my mind", do Pixies, e o entrega aos policias que o rejeitaram, dizendo com o peito estufado: "Eu não preciso de um distintivo para saber quem eu sou".
Ronnie é o porta voz de uma fatia da sociedade que não se prende aos rótulos e fantasias do mundo moderno que legitimam e dizem se voce é bom ou não pelas roupas que voce usa, ou cargo que ocupa. Pelo contrário, Ronnie e sua legião de seguidores brincam com essas fantasias da modernidade que tanto nos distancia de nós mesmos, nos encorajando a sermos aquilo que esquecemos (ou nem sequer sabíamos) que eramos: homens com chapéus engraçados.
“À procura de Eric” fala sobre o acerto de contas com o passado, tão necessário a sobrevivência daqueles que passam a vida a fugir de si mesmos. O filme tem início com personagem principal, Eric Bishop, dando voltas em círculos numa rotatória, com seu carro. Uma cena de uma claustrofobia extenuante. Assim como na rotatória, Eric apenas anda em círculos em sua vida, sem nunca chegar a lugar algum. Estas são sucedidas por cenas cômicas e leves, de Eric com seus amigos, quando estes ainda achavam que Eric apenas “andava um pouco triste” e precisava que o fizessem rir.
Somo introduzidos a vida de Bishop, que entre a cerveja e o futebol com os amigos, enfrenta a rebeldia de seus enteados, 2 adolescentes filhos de sua segunda ex-mulher, que estão crescendo com uma referência paterna insconstante e desequilibrada, que ainda não superou o passado. Eric está sozinho, e ainda emocionalmente dependente de sua ex-mulher, Lily, com quem teve um filho 30 anos atrás.
Eric que já foi um grande fã de futebol,e do clube Manchester United, ainda idolatra o ex-jogador Eric Cantona, conhecido como “THE KING” pelos torcedores locais. Quando, numa de suas crises emocionais, temos Bishop em em seu quarto, oprimido pelos conflitos que o atormentam, conversando com um pôster do REI, se aconselhando com a figura-símbolo dos tempos de alegria, a fumar seu baseado solitariamente, até que Cantona, o REI em pessoa, o responde numa de suas perguntas, para sua enorme surpresa.
Sim, Eric Cantona (que interpreta a si mesmo, com altas doses de auto-ironia), aparece somente para ele, e claro, o fato de ambos possuirem o primeiro nome igual não é mera coincidência. Eric está a procura de si mesmo, e para isso terá Eric Cantona como mentor e “psicólogo”, que através de conversas francas e famosas citações em francês, aconselha e encoraja seu xará a tomar as rédeas de seu destino e se responsabilizar pelas escolhas tomadas no passado.
Para tanto, terá que, entre um baseado e outro compartilhado com seu amigo Cantona, enfrentar o medo de reencontrar a mulher que tanto amou há 30 anos, limpar os armários cheios de correspondências antigas e mágoas mal resolvidas, e por fim romper a distância que impossibilita o diálogo com seus enteados, que já apresentam sinais de que as pequenas aventuras juvenis oferecem sérios riscos ao que resta daquilo que usualmente chamam de família. Sendo esta, melhor representada por seus amigos, também carteiros, e que sem os quais não teria coragem para “colocar os braços em volta da mulher que ama”, quando esta está tão perto depois de tanto tempo.
A solução de conflitos no presente se mostram intimamente interligadas com o passado, no qual o pai o oprimia e sufocava em suas decisões, desencorajando-o para a vida e suas consequências, como ter um filho aos 20 anos.
O filme conquista unidade através da busca da verdade de cada situação apresentada, não importando se tal situação é irreal, absurda, comovente ou cômica.
Através da cena final, onde com a ajuda dos amigos, todos fantasiados e uniformizados com máscaras de Cantona, representando por assim dizer, suas diversas personalidades reprimidas, que acabam por atender ao chamado de seu insconsciente, que luta para se fazer ouvir e se libertar do passado e suas dores.
Ken Loach, acaba por fazer uma obra contra o individualismo, onde as pessoas se vêem como adversárias. Toda essa solidariedade que desencadeia o final do filme é perfeitamente sintetizada pela torcidade futebol, onde fica gritante o quanto somos mais fortes numa turma, do que seríamos sozinhos.
Para surpresa de Bishop, e do próprio Ken Loach, ao ser questionado sobre a jogada mais marcante de sua carreira, Cantona afirma ter sido um passe dificílimo que resultou num belíssimo gol de Giggs. Bishop então pergunta se não teve medo de que Giggs errasse o gol, para o que Cantona diz: “precisamos acreditar em nossos companheiros de equipe”.
Acredite também em Ken Loach, e confira seu mais novo filme, que abre a 33 Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Leve seus amigos.
P.S.: Esse texto foi especialmente escrito para o pessoal do "Clítoris express". Colocarei o link do texto no site, assim que este voltar ao ar.
Uma pequena obra prima do cinema. Cada plano do filme fala como um quadro, têm-se a impressão de que o filme poderia ser contado através das fotografias, cena por cena. A composição da paisagem fala por si só, os diálogos se apresentam como complementos do que já é dito, do que já transborda em cada fotograma.
Composição de planos esta, auxiliada pelos movimentos de camera, que de tão sutis e precisos, evidenciam a devoção do diretor para com o cinema puro, onde a técnica está tanto em prol da história a ser contada, que acaba por se dissolver em poesia. Tudo isso, aliadao à trilha sonora de Jamie Cullum, com direito a música tema interpretada pelo próprio Clint.
As relações entre as personagens pintam a obra principal. Desta troca silenciosa e sincera, Clint nos apresenta o mundo de Walter Kowalski, ou melhor, como essa figura quase mítica ,encarnação de todos os personagens da carreira do ator, estão dissolvidos em um só. Num velho, que procura espaço num mundo que mudou sem antes pedir permissão a seu habitante mais antigo. Sendo este, o primeiro dos muitos ecos de "Onde os fracos não tem vez", 2008, dos irmãos Coen.
Um filme que começa e termina com velórios, mas retrata muitas portas se abrindo. Temos um diretor muito consciente do fim de um ciclo, o término de uma era, onde somente o encontro entre o velho e o novo, entre Walter e Thao, são capazes de transformar o mundo. Temos muitas cenas onde nosso olhar é direcionado para a abertura de portas, do lado de dentro, como se junto dos personagens também recebêssemos as pessoas em nossa casa, em nosso repertório de imagens. São planos que clamam pelo encontro. Fronteiras entre vizinhos são quebradas, e uniões estabelecidas.
Quando Sue (em ótima performance de Ahney Her), afirma que gostaria que o pai fosse mais parecido com Walt, e este questiona a razão, a menina simplesmente afirma com ar de dúvida "because you´re american", Walt se pergunta o que isso significa. Nenhum dos dois sabem o que significa ser americano hoje em dia. Walter, até então americano, representante da velha guarda tradicional de homens que foram para a guerra (Coréia, 1951) e trabalhavam nas grandes montadoras da Ford, símbolo este, representado pelo carro que dá nome ao filme. Carro este, produzido e dirigido pelo personagem, da fábrica até sua casa. Marco da prosperidade norte-americana nos anos 50 e seu "american way of life" tão difundido mundialmente. Nos EUA de hoje, Walt vê o bairro, antes lar de trabalhadores americanos, ocupado por imigrantes Hmongs, negros, chineses e mexicanos.
Difícil não estabelecer um paralelo entre o personagem de Walter Kowalski, com o Stanley Kowalski de Tenessee Williams, em "Um bonde chamado desejo", romance de 1941 ,interpretado nos cinemas por Marlon Brando. Ambos são descendentes de imigrantes do fim do séx. XIX, mais especificamente de poloneses, são sucessores da geração que construiu as bases da nação que viria a vencer a Segunda Grande Guerra. Assim como Walt, Stanley fazia o tipo durão, patriota, republicano, dotado de uma ética própria e particular, alheio a tudo que lhe tira da rotina de trabalho árduo e pequenos prazeres com os amigos, seja o boliche para o segundo ou o bar para o primeiro. Com a diferença de que o Kowalski de T. Williams fazia sentido no tempo-espaço que ocupava (anos 40), já o Kowalski de Clint tenta recuperar o espaço que um dia ocupou, nem que para isso precise alcançar a tão temida e ao mesmo tempo almejada, redenção.
Através da troca com Sue, e mais precisamente com Thao, que Walt se vê ainda como ser humano, como um tipo de alteridade tardia ou nostálgica, através do olhar desses dois jovens, Walt se vê obrigado a enfrentar sua existência tal qual ela se apresenta no presente. Desafia-se a estimular a última faísca de vida que lhe resta de um passado de dor e arrependimento. Talvez por isso insista tanto em ensinar um ofício a Thao, jovem tímido e inexperiente, que vive sendo perturbado por seu primo e sua gangue. Walt, dá as ferramentas para que o jovem construa um mundo novo, um mundo onde Thao e sua família possam viver em paz, cultivando o pouco de identidade e verdade que faz dos EUA da era Obama, um país multicultural, que respeita e exalta as diferenças.
Como num túnel do tempo, Walt desejava poder, através de seu Gran Torino, 1972, voltar ao tempo em que podia simplesmente deslizar pelas estradas a beira-mar, sentindo a briza no rosto, com a segurança que o Estado lhe dá, e a constatação tardia da beleza que aqueles instantes proporcionavam.
Um retorno triunfal, através das mãos de um velho amigo (amigo velho, também, ás vezes), apresento uma reflexão sobre a juventude que parece crítica de cinema, ou será toda crítica um exercício de reflexão sobre a vida? Renato Couto não dá as respostas, mas nos instiga a pensar: Quem somos estes que chamam Juventude?
Uma fase glamorosa, a juventude é o momento em que são decididos muitos dos caminhos que serão trilhados ao longo da vida. Talvez, por isso seja para muitos que vivem essa fase, um momento de angústias e de questionamentos na preocupação em se construir uma pessoa que se quer ser partilhada de uma aspiração por uma sociedade melhor.
Proibido Proibir (2007) foi também o lema adotado pelos estudantes em Maio de 68, quando jovens encontraram-se na formação da contra-cultura. Sendo assim, existe uma conexão entre aquela época e a que se passa no filme, porém de uma forma que expressa a alma jovem, incipiente na sua capacidade de mudar o mundo. No entanto, Proibido Proibir não se passa no mesmo ambiente de Os Sonhadores; o pais e o tempo são outros, e sendo assim, diferentes são os problemas que emergem dessa sociedade. O filme co-escrito e dirigido por Jorge Durán, chileno radicado no Brasil desde 1973, retrata o Rio de Janeiro do começo do século XXI, quando estudantes universitários de classe média vivem os conflitos para se firmar como indivíduos. Para essa classe privilegiada, é a oportunidade de viver a universidade, locus de conhecimento, porém numa relação de pertencimento que mantém o jovem afastado da realidade, fazendo-o habitar uma espécie de bolha.
Paulo (Caio Blat), estudante de medicina, representa um jovem não politizado, cético, que desdenha de movimentos estudantis e pensa que todo o governo tem o mesmo projeto de ˜foda-se”para o povo. Para viver, resguarda-se nas drogas e nas garotas e nessas plataformas estaria arquitetado seu plano de governo. León (Alexandre Rodrigues), um negro estudante de sociologia, apontado como o melhor da turma, que acredita na construção de projetos sociais como meio de reduzir as mazelas a que são expostas as classes pobres. São definidos um pelo outro como alienado e idealista respectivamente, moram juntos “num lugar quente, longe do mar, mas perto da faculdade e onde aluguel é barato”. Apesar dos times de futebol diferentes e outras desavenças, um considera o outro seu irmão do peito e gastam suas mesadas em livros e cd´s, perdem a chave de casa e escalam o muro para entrar pelos fundos.
Letícia (Maria Flor) é trazida por León como namorada, porém, no melhor estilo Jules et Jim, logo consolida-se a formação de um triangulo amoroso, quando Paulo demonstra-se também apaixonado pela nova amante do amigo. Letícia é uma estudante de arquitetura e seus passeios pela cidade permitem uma fotografia por lugares não populares do Rio, chamando a atenção para uma beleza envelhecida e mal preservada. As tardes, recheadas de discussões sobre política, sobre o amor e sobre a arte, são passadas juntas pelos três. As constantes mudanças de planos, como entre morar juntos ou realizar uma viagem para o exterior, mostra um futuro não definido e que permeia a mente do jovem frente as inúmeras possibilidades.
Quando Paulo aproxima-se de Rosalina, uma paciente com leucemia do hospital-escola onde estuda, a vida dos três estudantes mescla-se com a realidade e eles deixam aquela bolha. A partir desse momento, os três jovens descobrem as limitações de suas forças ao perceberem que médicos nem sempre poderão salvar vidas, que, a uma vez famosa beleza da cidade, transformou-se num _mar de favelas” e que uma classe dessa sociedade parece condenada a viver na pobreza e na violência. Diante de uma realidade que nada condiz com seus sonhos e os problemas de suas próprias relações amorosas, a vontade que eles tem é “de largar tudo”, talvez uma vontade de deixar de crescer e voltar a uma época quando estavam protegidos destas situações. Ao se depararem que _tudo está podre e eles que se fingiram de cegos para não ver_ a fuga torna-se inevitável.
Vista de fora e de cima, observada de um mirante, percebem aquela como a cidade que os construiu, e, bem como foram preparados, que agora eles tem como missão a construção dela. Juntos, mostram-se preparados para seguir o futuro como indivíduos, aptos a distinguir o bem do mal. De certa maneira, o mundo está mesmo em suas mãos e a fuga não é solução, já que o que aconteceu não pode e não quer ser esquecido. A esperança e a crença na bondade do homem surgem com a música, unindo-se ao final do filme, e prontas a ecoar no imaginário do espectador.
O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente
É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer
Darren Aronofsky, transforma a despretensão em sua maior pretensão. Recurso, este, que privilegiando seu astro em reconstrução, Mickey Rouarke, acaba por homenagear o cinema de autor, onde a forma de se contar a história diz mais que a história em si. A história clichê de redenção de um astro decadente sai, para dar lugar a própria redenção do diretor e seu ator. Temos como resultado uma verdadeira obra de arte, onde a realização são maiores que seus realizadores. Onde o ser humano prevalece. As escolhas do diretor deixam claro o quanto a prioridade era a intimidade com o ator, deixando-o livre para ser aquilo que precisa ser. Ao não lutar com seu ator, deixa-o livre para lutar. Sua câmeras parecem “perseguir” Mickey Roarke e seu Randy “The RAM”. O início do filme com seus cartazes, e áudios que relembram as glórias de um passado não tão distante, são interrompidas para que nos situemos no presente. Vemos Randy, sentado, cabisbaixo, logo após mais uma luta. Em seguida temos um plano sequencia, no qual já fica claro que o personagem é tudo, ele quem direciona nosso olhar, mas não para o que vê, e sim sobre si mesmo. O personagem é o objeto da cena, ele que preenche o quadro do início ao fim.
Grande parte da mídia impressa e até mesmo dos sites especializados em cinema supervalorizaram as coincidências entre personagem e ator. Como se fosse um renascimento de ambos, uma tentativa de darem a “volta por cima”, como se Rouarke tivesse abandonado a carreira de ator e tentasse voltar a ativa. Assim como Roarke nunca deixou de fazer filmes, mesmo enquanto arriscava-se como lutador de boxe profissional, o filme trata mais sobre os nocautes que a vida nos dá, do que aqueles que se experimenta em um ringue, seja ele de boxe ou luta livre. Fosse apenas esse fato, ainda teríamos muitos argumentos para valorizar as coincidências entre as biografias do Mickey Roarke personagem e ator . Porém, o fato é que tanto o filme quanto a carreira do ator não contam uma história de redenção a medida em que refletem o quanto a vida que levamos é fruto de nossas escolhas, e o quanto podemos escolher entre fazer aquilo que faz sentido para nós num determinado instante, ou nos render àquilo que a sociedade espera que façamos e sejamos, mesmo que para isso soframos a dor do arrependimento. Assim como Roarke, escolheu abdicar dos papéis de galã em Hollywood na passagem dos anos 80/90, para lutar boxe profissional, Randy também escolheu continuar lutando, mesmo após a passagem implacável do tempo. Um tempo que deixa muitas marcas, tão profundas que nem mesmo as incontáveis cicatrizes que Randy mostra em seu corpo, conseguem representar.
Assim como a maioria das pessoas que fazem escolhas, Randy possui muitos arrependimentos ao chegar ao 50 anos. Ninguém é considerado “looser” por ter sido um pai ausente ou marido irresponsável. São falhas consideradas humanas. Porém, diferentemente de uma maioria considerada "bem sucedida" pela mídia e/ou sociedade, que possue a desculpa ideal para a negligência que praticam, Randy é respeitado e rodeado de amigos no mundo em que vive. Respeito e carinho que recebe por ser aquilo que é, não por aquilo q tem. O "ser" substituindo o "ter", coisa rara em tempos onde o consumo da imagem deixa marcas na pele (Tanto Randy quanto a dançarina Cassidy, exibem e maculam seus corpos como mercadoria de consumo)
No mundo que construiu para si, onde quer que vá é recebido por amigos, e recebe destes um carinho tão sincero quanto o que um bom pai poderia vir a receber de seu filho. Pois o filme trata justamente disso, dessa busca do carinho perdido. O carinho da filha que abandonou e da esposa que nunca teve. O que precisa ficar claro é que as tentativas de reconciliar com sua filha já adolescente e a entrega em um relacionamento pouco usual com uma dançarina-stripper, são frutos daquilo que deixara para trás, em troca do que construiu em sua carreira. Nada distante do empresário que após anos se dedicando à profissão, após uma crise de estresse se dá conta de que o dinheiro não é tudo e passa a olhar o mundo com outros olhos. A diferença é que Randy não conquistou dinheiro através de sua profissão, pelo contrário, trabalha e freqüenta academias durante a semana para poder lutar nos finais de semana. Nosso lutador conquistou muito mais que dinheiro, conquistou o carinho de amigos verdadeiros e principalmente fãs. Não é por menos a comparação de nosso astro com Jesus Cristo, Randy também se sacrifica em troca de nossa sobrevivência. A diferença é que Jesus não pediu nada em troca, nosso lutador pede apenas carinho.
A luta com Aiatolá nem foi idéia sua, mas o fez acreditar que algo a mais ainda poderia ser realizado, um possível retorno ao topo. Mas Randy acaba desistindo da luta, apenas aceita lutar novamente quando se vê sem identidade no mundo real, Mr. Razinsky, pai e amante já não fazem mais sentido, sucumbiram para que Randy THE RAM prevalecesse. Cassidy, a dançarina e mãe quarentona que almeja criar seu filho na Flórida e que recusa a se apaixonar por Randy, também nega seu nome da vida real. Sendo conhecida nas ruas como Pam, Cassidy também corrige funcionário do clube de dança quando este se refere a ela no momento em que decide seguir nosso lutador em sua luta final, já que nesse momento, deixa de ser a dançarina e assume seu nome "verdadeiro", o nome das ruas, o da mãe que está apaixonada e que pretende mudar os rumos de sua vida.
Temos muitas cenas memoráveis, como aquela em que Randy, após o ataque do coração convence sua filha a sair com ele, e a chama para ir no "lugar preferido deles". Randy tenta resgatar os bons momentos que permanecem intocados em sua memória. Temos então, pai e filha, juntos em lugares bem amplos como o cais do porto, com direito a horizontes sem fim, pedidos de perdão e uma última dança. São cenas em locais enormes, com muito espaço a ser preenchido, galpões empoeirados e vazios sendo revisitados, como o coração de sua filha, e seu própio coração literalmente partido pelo tempo. Tentam preencher o que o tempo tratou de deteriorar. Para depois perceber que sua carne, já velha, não é o que possui de pior...infelizmente há certas coisas que o tempo não muda e nosso herói insiste em dar motivos para a culpa que sente.
No auge da narrativa temos Randy trabalhando horas extras como atendente da sessão de frios do supermercado do qual é funcionário, quando explode de raiva ao ser reconhecido por um cliente que afirma "reconhecê-lo de algum lugar, só que mais velho". Randy se cansa de ser um mero produto consumido pelo tempo, e após provocar profundo corte em seu dedo na máquina de cortar, sai pelos corredores sujando a cara de sangue e derrubando as prateleiras dos produtos a serem consumidos pelos clientes, estes, os mesmos que o consumiram quando jovens nos anos 80. Agora, já velho, descobre que as crianças não querem mais saber de nintendo...como ele mesmo diz em um dos diálogo memoráveis: "os anos 80 eram demais, aí veio o Kurt Cobain e estragou tudo".
Em sua luta final, que poderia se transformar num clichê de redenção e triunfo do herói, se transforma num épico às avessas. Vemos nosso lutador se esvair em sangue quase sem forças, e numa sequência rápida de quadros que se ospõem em sua magnitude, presenciamos o último salto de THE RAM, o salto para imortalidade do quadro, que mesmo sendo literalmente "rasgado" pelo personagem, se eterniza na escuridão da sala de cinema, momentos antes de ouvirmos Bruce Sprinsgteen dar início a belíssima música tema.
Fora o fato de ter me incomodado com algumas frases de efeito, que pareciam ter saído de livros de auto-ajuda e o final onde se afirma que "alguns pessoas dançam, cantam...jogam bola de gude", tinha gostado do filme, cheguei até a me emocionar, apesar de achar que isso aconteceu por estar mais sensível no dia, mas o que mais me incomodou foram as semelhanças com o filme de Zemeckis, "Forrest Gump".
Depois que descobri que ambos os filmes possuíam o mesmo roteirista, pesquisei na internet e comprovei que não estava sozinho em minhas impressões.rs Com voces: "THE CURIOUS CASE OF FORREST GUMP".
Todos já devem estar cansados da comparação com "Cidade de Deus", mas é inevitável. Danny Boyle fez sim, o seu "Cidade de Deus" indiano. E não me refiro apenas a cena inicial que chega a se confundir com a cena da galinha de Fernando Meirelles. A edição clipada está ali, assim como no brazuca, para criar uma Índia onde o "slumdog" (favelado, do título original) seja agradável de se ver como nos morros cariocas retratado por Meirelles.
Poderia fazer a relação entre os personagens Jamal X Salim com Bené X Zé pequeno, traçar paralelos entre as duplas através do amor X ódio, e temperamentos opostos dos amigos que possuem destinos entrelaçados. Porém, Boyle não assinou o roteiro. Sendo assim me limito às opções da direção, onde por mais que Boyle se esforce para apresentar um olhar original através de enquadramentos milimetricamente fora do eixo, alternâncias de texturas que remetem ao realismo documental quando granuladas (o que gerou algumas cenas desncessárias como a do policial que olhando para a camera pede para pararem de filmar, como se tudo aquilo fosse real), câmeras lentas que interrompem cenas de forte ação dramática, não apresenta nada de novo, nada que Tony Scott não tenha esgotado com seus filmes de ação: "Dejá vu", 2006, "Domino", 2005 e "man on fire", 2004. Assim como os elencados, o filme abusa de flashbacks, só que diferentemente de Tony Scott, Boyle não os utiliza para cumprir o que propõe, subestimando o espectador mais atento, revelando ainda mais o quanto hesitou em fazer escolhas. Ao não optar entre o realismo e o fantástico, terminou por criar circunstâncias onde o espectador não sabe se acredita na Índia "realista" que é apresentada, com seus abismos sociais e impunidade indiscriminada ou se deve acreditar que Jamal e Salim são realmente Athos e Porthos, personagens da história dos 3 mosqueteiros e a vida miserável que levam são mascaradas pelas aventuras que desfrutam.
A impressão de que o filme foi superestimado fica latente quando analisamos o que é proposto, já que este se adequa ao entretenimento. Isso não seria nada demais, não fosse a constatação de que ele está sendo considerado maior do que isso, maior do que o diretor de Top Gun (Tony Scott), como se dissesse mais do que realmente diz, e pior, como se a intenção tivesse realmente sido esta. O filme não tem consciência de sua superficialidade, forja um aprofundamento vazio e sem sentido.
Voltando a comparação, assim como Meirelles, Boyle realizou seleções e oficinas com não atores, moradores do cenário a ser retratado. Índia, Mumbai e sua maior favela. A principal diferença reside no fato de que o ingles seja um dos idiomas oficiais da India, permitindo que a maior parte do filme tenha sido falado em inglês credenciando-o a concorrer (e ganhar) as principais estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e direção.
Até mesmo eu desconfiaria de estar sendo muito cruel com o filme, não fosse a trama central e seu previsível desfecho, onde o destino comprova que o amor está acima de tudo, ou quase tudo, já que aqui ele só se concretiza quando a pergunta que dá título ao filme é respondida!! Ou melhor, quando descobrimos aquele que MERECE ser milionário. O ÚNICO indiano merecedor de respeito. Aquele que compensa todos os males dos 1,3 bilhão restantes.
Único, porém o bastante para Hollywood se esforçar em agradar o mercado consumidor de um país em expansão econômica e ávido por reconhecimento do ocidente.
Tão comum nos prendermos em pensamentos que nos privam do presente. Vivemos dentro de nossas cabeças, projetando um futuro especulado em possíveis escolhas, ao invés de as realizarmos no presente. Ou será no passado nostálgico e idealizado da infância que vivemos a maior parte do tempo?
Deixamos de olhar as estrelas e nos apegamos ao relógio. Trocamos o tempo da natureza pelo tempo do consumo. Vivemos em função de um tempo externo, alheio a nós mesmos, num desrespeito às nossas necessidades essenciais para manutenção da sanidade.
É nesse terreno tortuoso e íngreme que Daniel Burman pinta o cenário onde Leonardo (Oscar Martinez) caminha. Assim como Antoine Doinel era para Truffaut, Leonardo aparenta ser para o diretor argentino Daniel Burman. Leonardo também é escritor, porém de peças. Renomado dramaturgo que ao se deparar com as incertezas de suas escolhas, em decorrência das inúmeras alternativas que a vida e as circunstancias proporcionam, acaba por criar realidades paralelas à existência dos demais, mesmo que muitos participem desse "seu mundo", sem ao menos saberem.
Leonardo é casado com Martha (Cecilia Roth) com quem tem 3 filhos. Quando os 3 crescem e partem para estudar longe, surge a necessidade ver o relacionamento de outra perspectiva. Seria tal necessidade fruto da sociedade na qual vivemos, tendo esta, papel determinante em nossas escolhas, mesmo aquelas em que acreditamos exercitar o tão falado livre-arbítrio?
Quando Leonardo e Martha se encontram nas circunstâncias onde a praxe é a redescoberta dos dons reprimidos em função da família e do matrimônio, o casal hesita em aceitar o que a sociedade espera deles. Ao mesmo tempo que se inclinam a tomar atitudes que legitimem os livros de auto-ajuda, se esforçam em certificar se estão agindo de acordo consigo mesmos. Os desejos reprimidos ao longo do casamento se afloram, como se a inevitável independência dos filhos (e consequente abandono do ninho) servisse de pretexto ou catalisador de atitudes adiadas durante tanto tempo.
A medida em que transferem o foco de atenção dos filhos, se deparam com aquilo que se tornaram. Ela quer terminar a faculdade, cuja qual trancou a matrícula para cuidar da casa e dos filhos. Ele quer apenas ficar tranquilo, não sem antes realizar fantasias esquecidas, ou seria fantasiar realidades? Já que os encontros "casuais" de Leonardo com uma mulher de misteriosa beleza, se dão através de elipses que mais confundem os sentimentos do espectador como protagonista nesse grande jogo que é a vida através do cinema.
Em certos momentos Leonardo afirma não ter nada contra os atores cantarem nos grandes musicais, já que o que sempre o incomodou era o fato de dançarem. Contrariando seu protagonista, Daniel Burman se vale de precisos movimentos de câmera para registrar a dança entre transeuntes que se deslocam num caos ordenado, sempre através de enquadramentos inusitados, e composições que privilegiam o primeiro plano.
Assim, entre verdadeiros encontros com o outro, e principalmente consigo mesmo, Daniel Burman, parece nos querer dizer através do filme, e mais especificamente de uma cena, que para vivermos o tempo do hoje, o tempo presente, da natureza, basta nos levantarmos da poltrona logo após o término da sessão, dirigirmos em direção à saída para as ruas, e escolhermos o caminho de volta para casa, ou assim como Leonardo, que também levantou-se de sua poltrona, caminhar em direção ao nosso quarto e contarmos algo para nossa esposa. O certo é que em ambos os casos, tanto o caminho de volta quanto o que será dito a esposa, pouco importam. A ação precede a intenção. Pensar não é preciso, agir é preciso. Agir é o que importa... "AÇÃO!"
1º - Onde os fracos não tem vez (No country for oldman, USA), irmãos Coen 2º - Sangue Negro (There will be blood, USA), Paul Thomas Anderson 3º - Canções de amor (Les chansons d'amour, FRA), Cristophé Honoré 4º - Queime depois de ler (Burn after reading, USA), Irmãos Coen 5º - Na natureza selvagem (Into the wild, USA), Sean Penn 6º - A culpa é do Fidel (La faute à Fidel!, FRA), Julie Gavras 7º - Não estou lá (I´m not there, USA), Todd Haynes 8º - A fronteira da alvorada (La Frontière de l'aube, FRA), Philippe Garrel 9º - Em Paris (Dans Paris, FRA), Cristophé Honoré 10º - Paranoid Park, USA, Gus Van Sant
Com “Queime depois de ler”(Burn after reading, 2008), os irmãos Coen voltam em grande estilo numa sátira ácida da sociedade de consumo como um todo, em especial a norte-americana, berço da hollywood que eles tanto desprezam.
Desde o cartaz o filme já intriga, “um filme dos irmãos Coen com Brad Pitt e George Clooney? Sobre espionagem?”. Mas como torcer o nariz para um filme dos irmãos Coen, uma das últimas ilhas de criação independente dentro de hollywood, num horizonte recheado de refilmagens de filmes de terror japonês e infantis com Brendan Fraser.
Não, mesmo após a consagração no último Oscar, os diretores não se renderam aos produtores inescrupulosos, pelo contrário, fica claro que estes é que se renderam a eles.
Não se trata de um filme na linha de “onze homens e um segredo” ou suas continuações igualmente mirabolantes e sem sentido. Aqui, o elenco de estrelas faz sentido. Primeiro que em “Queime depois de ler”, a falta de sentido se transforma em crítica, e não ao filme que além dos galãs já citados, conta com Julia Roberts no elenco, e sim à sociedade como um todo, em plena crise(e não me refiro à econômica), tentando se agarrar a algo que faça sentido, seja numa reinvenção de si mesmo através de cirurgias plásticas, num relacionamento extraconjugal, num trabalho onde o produto se distancia cada vez mais do indivíduo como ser pensante, ou, resumindo, na busca incessante de prazer através da fuga daquilo que o homem moderno simultaneamente mais teme e necessita para entender a si mesmo, a solidão. Para isso, os personagens de “Queime depois deler” não medem esforços, desde buscas do "par ideal" em sites de relacionamentos da internet, até a construção de verdadeiras máquinas do sexo. Os irmãos Coen conseguiram a proeza de realizar um filme que atinge diversos nichos de espectadores, sendo capaz de satisfazer a todos plenamente. Quem queria rir, sem dúvida riu, quem queria algo extremamente irônico riu também, quem esperava suspense riu ainda mais. Mas ninguém riu mais do que quem esperava ver George Clooney e Brad Pitt como salvadores do planeta. Os dois atores em especial, parecem se deliciar com o fato de estarem brincando com a imagem que construíram de si mesmos (ou construíram para eles?). Francês McDormand está impagável como a mulher obcecada por cirurgias plásticas, que faz de tudo para conseguir o dinheiro que, segundo afirma, será capaz de dar início a sua própria reinvenção. Em determinado momento, a personagem interpretada pela esposa de Joel Coen afirma que "seria expulsa de hollywood" e por isso quer a reinvenção que os livros de auto-auda tanto prometem.
Através de Tilda Swinton e John Malcovitch, os Coen parecem extravasar toda repulsa ao estilo de vida que Hollywood vende e ostenta, expõem toda a indiferença que estava contida em seus olhares quando receberam os prêmios das principais categorias do Oscar desse ano, por “Onde os fracos não tem vez”(No country for oldman, 2007). John Malcovitch faz um agente da CIA, que logo no início do filme é afastado de seu cargo por “problemas com álcool”(o que rende uma das melhores piadas do cinema em 2008), seu afastamento gera todo o conflito com o qual nos deparamos e tentamos entender sem êxito algum. Tilda Swinton é a esposa “fria e egocêntrica”, muito bem sucedida profi$$ionalmente (ela é pediatra??), que não mede esforços para manter sob seu controle, tanto o marido quanto o amante. Através do casal, revela-se o verdadeiro jogo de espionagem que paira sobre a sociedade americana atual. Com o fim da guerra fria, a espionagem que resta é a praticada entre cônjuges, para obtenção de provas de infidelidade visando garantir a "segurança" do patrimônio construído em conjunto.
A trama sem pé nem cabeça revela apenas a superfície de uma ferida mal escondida, que após alguma "reflexão-espremida" termina por revelar seu pus fétido e incontido. A direção meticulosa faz do espectador refém de seus prórpios sentidos, o roteiro extremamente bem construído nos leva a um final onde nada se passa, nada nos é revelado através da imagem, e sim através de uma simples e informal conversa entre chefe e subordinado. Através da conversa de ambos, ou seja, por meio da palavra, temos um esforço para que o filme seja concluído-entendido, os personagens, assim como nós, querem entender o filme do qual fazem parte, também querem entender suas funções num mundo cada vez mais caótico.
Talvez seja essa a principal mensagem e ironia dos irmão Coen. Através da conversa que encerra a história, temos um convite ao espectador, para que este, acredite na palavra, antes da imagem.
É através da palavra que entendemos a nós mesmos e o mundo em que vivemos, através dela que nos entendemos enquanto sociedade. Através da imagem, os irmãos Coen fazem um pedido para que não acreditemos neles (em hollywood?)...
...para que leiamos antes de queimar (ou seria, antes que queimem?)...
1- "Slow blogging" é a rejeição do imediatismo. 2- "Slow blogging" prova que nem tudo que merece ser lido é escrito às pressas. 3- "Slow blogging" é meditação. 4- Blogs de notícias são como restaurantes de fast-food. 5- Fique em silêncio por alguns minutos antes de escrever. 6- Não escreva a primeira coisa que lhe vêm a cabeça. 7- Inclua posts uma ou duas vezes por semana, mas, se precisar ficar um mês sem escrever, faça.
Ou seja, se estou há algum tempo sem postar não é por preguiça ou falta de idéias, é porque atingi o nirvana e só como legumes...
Esse é um comercial onde Wes Anderson homenagia Truffaut, tendo como referência o filme "A noite americanca" de 1973, renomado clássico onde o francês além de dirigir interpreta um diretor de filmes(interpreta a si mesmo?). No comercial, Wes interpreta a si mesmo dirigindo um comercial enquanto conversa com o público.
Imperdível!!
Obs.: O termo "noite americana" que dá nome ao filme de Truffaut é referência ao recurso utilizado no cinema para filmar cenas noturnas durante o dia, principalmente pela manhã.
Esse trecho do início do filme ilustra bem a referência que Wes Anderson utilizou.
Obs.: o único trecho que achei na internet era em italiano, se acharem em francês é só me encamihar que atualizo aqui.
Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba Duração: 114 min.
Estréia: 31/10/2008 Ano: 2008
Novo filme de Guy Ritchie, que não lançava nada desde "revolver", 2005, teve estréia na Mostra internacional desse ano.Assim como nos filmes anteriores, "snatch", 2000 e "jogos, trapaças e dois canos fumegantes", 1998, o diretor voltou ao terreno que tanto retratou, o do submundo do crime britânico. Dessa vez, porém, mostra a influência da máfia russa nos times de futebol ingleses e seu consequente envolvimento com especuladores imobilários ingleses, responsáveis pelo boom imobiliário, que transforma Londres numa das cidades mais caras para se viver hoje em dia, obrigando ao seus cidadão e imigrantes se usarem de modos escusos para poderem fazer parte do jogo. Tema muito atual, vide crise financeira do mercado imobiliário norte-americano (lembrando que o filme foi concluído antes que as bolsas despencassem).
Assim como nos anteriores, o filme possui estética apurada, uma apresentação de créditos moderna, original, típica de "guy ritchie" movies, muitos personagens e subtramas que muitas vezes se apresentam confusas, porém seus personagens sempre muito bem escritos, típicos desse universo construído, aliada á estética moderna, edição ágil e movimentos de câmera sofisticados e sua já clássica, porém dessa vez mal utilizada, narração do filme, que por vezes se torna confusa tamanha a quantidade de coisas que se passa na tela. Suas qualidades quando exacerbadas acabam por se transformar em seus defeitos, já que temos a impressão de estar vendo o mesmo filme pela terceira vez, só que numa versão piorada.
O Filme aparentemente aponta numa direção e caminha em outra, não que essa imprevisibilidade seja uma qualidade, já que justamente por isso torna-se contraditório, a não ser que seja assistido sabendo-se desde o começo se tratar de uma trilogia, o que explicaria bastante os motivos que levam a desrespeitar personagens importantes na trama, para promover coadjuvantes, se contradiz na construção (intricada como sempre) de sua própria trama, deixando um ruído ao término do filme.
Fica claro uma tendência maior em explorar o humor, mesmo assim exagera na dose, apresentar personagens que mesmo pertencendo ao universo que constrói (ex-combatentes do exército russo) os torna caricatos demais, como nas cenas em que mesmo após muitos tiros e revezes que matariam um ser humano normal, parecem possuir algum tipo de blindagem extra, algo não justificado na história, mas que rende algumas risadas por parte do grande público.
Seu cinema, considerado por muitos como homofóbico, apresenta novidades, já que raramente temos uma personagem feminina e os masculinos costumam ser estereótipos do homem britânico durão. Temos uma Thandie Newton se esforçando para parecer Halle Berry, numa personagem que possui todos os trejeitos de uma femme fatalle, porém não convecem em nenhum momento, seu esforço fica claro em cada olhar arrogante que dispara contra Gerard Butler, seu jeito de andar, uma postura de mulher moderna que faz sexo sem compromisso(temos essa cena no filme), que acaba não convencendo pela culpa que revela. Halle Berry não precisa se esforçar para parecer uma femme fatalle, ela é.
Outra novidade nesse sentido é o personagem Bob, membro da gangue central, apresentado como homossexual, de uma forma muito engraçada, sem ser apelativo, Guy encontrou uma forma muito sincera e original de brincar com a sexualidade de cada um.
Digamos que se Guy Ritchie conhecesse menos suas qualidades, ou ao menos não tivesse tanta certeza das razões que fizeram "jogos trapaças e dois canos fumegantes" e "snatch: porcos e diamantes", terem sido sucesso de crítica e de bilheteria, correria menos riscos de se repetir, revelando que mesmo em tempos de crise, apostar na certeza nem sempre é um "negócio" saudável para a carreira de um diretor.
Os irmãos Luke Wilson e Owen Wilson, atores sempre presentes nos filmes de Wes Anderson, em cena de "Bottle Rocket", cartaz abaixo.
Cartaz do primeiro longa de Wes Anderson, de 1996.
Truffaut em ação
“Eu me sinto parte desse grupo de cineastas para quem o cinema é um prolongamento da juventude, o das crianças a quem mandaram brincar num canto, que reconstruíram o mundo com os brinquedos e que, na idade adulta, continuam brincando através dos filmes. É o que chamo de cinema do quarto dos fundos, com uma recusa da vida tal qual ela é, do mundo em seu estado real, e, em reação, com uma necessidade de recriar alguma coisa que se aproxime um pouco do conto de fadas, um pouco do cinema que nos fez sonhar quando éramos jovens”
François Truffaut
Truffaut fez tal afirmação em uma entrevista nos anos 70, mas poderia muito bem ser atribuída a Wes Anderson em pleno século XXI, tamanho o sentido que faz se colocada ao lado da obra do norte-americano.
Assim como Truffaut, Wes Anderson sempre explorou em sua obra temas muito pessoais, muito próximos de sua realidade, desde a ambientação como em “Rushmore”, 1998, onde o pano de fundo da história é uma escola de elite que dá nome ao filme, (Wes também estudou num colégio de elite) até a classe econômica em que vive, seus personagens principais quase nunca possuem função econômica pré-determinada, como em “Darjeeling Limited” (2007), onde em nenhum momento menciona-se a ocupação profissional de seus protagonistas, embora uma das cenas dos flashbacks dos 3 irmãos, interpretados com brilho e sinceridade tocantes por Owen Wilson, Andrien Brody e o também roteirista do longa, Jason Shwartzman, envolva um carro Alpha Romeo esporte, herança do finado pai.
Nunca sabemos as profissões de seus personagens talvez porque não é através delas que seus personagens são julgados. Sua maneira de ver-retratar a sociedade privilegia o ser humano em suas contradições, prefere expor as dores e alegrias de seus personagens, fazê-los dividir com o público suas frustrações e conquistas, sem jamais perder um tipo de humor, tão raro, talvez, único no cinema contemporâneo. Seus personagens transitam entre a dor e as alegrias, culminando com freqüência na redenção, sem nunca soarem piegas. Talvez por isso seja o cineasta que possue um dos raros dons artísticos (na minha opinião), o de fazer rir e chorar simultaneamente. Ri-se de si mesmo, as lágrimas escorrem à medida que o público se identifica com os personagens e seus dilemas, não importa tenham eles uma Ferrari conversível(carro do personagem de Owen Wilson em "Royal Tenembauns), ou andem de “táxi cigano” (o “gipsy cab”, táxi caindo aos pedaços, usado por vários personagens em “Royal Tenenbaums”, 2001).
Assim como Truffaut também o foi, injustamente claro, Wes Anderson poderia correr o risco de ser acusado de fazer um “cinema burguês”, termo ultrapassado, que ainda fazia sentido na França dos anos 70, não fosse a sinceridade com que aborda os conflitos e o respeito com que trata seus personagens, desde os coadjuvantes (que fazem toda a diferença) como o Pagoda de “Royal Tenenbaums” (2001), personagem este, que se não for o mesmo, aparece nos demais filmes do diretor personificado pelo mesmo ator, até mesmo em seu longa de estréia: “Bottle rocket” (1996). Preocupação esta também encontrada nos filmes de Truffaut, onde personagens coadjuvantes possuem cenas aparentemente sem sentido, como a do suposto “psicopata” que habita o vilarejo do então vendedor de rosas Antoine Doinel, em “Domicílio Conjugal” (1970).
Muitos classificam o cinema de Wes Anderson simplesmente de atual e de estética extremamente apurada e moderna, por isso o “hype” no título do texto, sem dúvida, sua fotografia e direção de arte são modernas e estilizadas, se distanciando do real através de cores vivas e planos seqüência que não possuem o compromisso de manter o espectador preso ao “mundo real”, sua realidade se aproxima da tentativa de reconstruir um mundo próximo dos contos de fadas que Truffaut citou. Cria um mundo irreal, sem contar mentiras, ou se as conta, o faz de maneira tão sincera que passa a ser uma qualidade, como em “Life Aquatic with Steve Zissou” (2004), onde além da estética exuberante, que por muitas vezes faz com pensemos se tratar de uma animação ou jogo de videogame, o roteiro possui características Fantásticas, como na cena em que encontram o tubarão gigante, objeto de desejo do explorador que dá nome ao filme, interpretado por Bill Murray, que parodia “Kojac”.
Wes Anderson vai além de sua estética extremamente apurada e peculiar, transcende a sinceridade contida nas histórias à medida que elabora símbolos para as mesmas. Como os curativos que o irmão mais velho de “Darjeeling limited” (2007), interpretado por Owen Wilson, ostenta em quase o filme inteiro, curativos que apenas fazem sentido numa das cenas de maior cumplicidade do filme, onde a coragem para se expor do personagem ao retirar as ataduras, acaba por revelar as feridas que por mais da metade do filme escondeu de seus irmãos. Os machucados ainda não cicatrizaram, o passado ainda não foi superado, tendo finalmente os irmãos real consciência da viagem que desde o início foi a tentativa de cura dessas feridas que ficaram abertas um ano antes, com a morte do pai. Na cena seguinte, é apresentada o símbolo da redenção, ao se repetir uma cena que já havia acontecido em outros dois momentos do filme, onde os personagens correm para alcançar o trem, que pode ser entendido como a vida, que está sempre seguindo seu curso, sem nos avisar para tanto (estamos sempre correndo atrás do trem?). Sendo essa cena específica a da redenção, devido ao abandono das malas que carregaram ao longo da viagem, todos os personagens abandonam suas bagagens à medida que correm para alcançar o trem, finalmente conseguem se desprender do passado, e esquecer as diferenças. Na cena seguinte os vemos sorrindo entre si e finalmente adentrando no trem, mais leves e seguros do papel de cada um.
Assim como Truffaut, Wes após nos fazer rir de uma determinada cena, apresenta uma seguinte, onde nos faz questionar sobre o que acabamos de rir. Truffaut dizia isso abertamente, sempre se gabou de brincar com o público, de vê-lo se contorcer nas poltronas do cinema por ter julgado um personagem. Wes deixa isso claro em seu último filme, no momento em que o público ri quando o personagem de Adrien Brody ao terminar de ler uma das histórias escritas por seu irmão mais novo, rindo, questiona se esta, é verídica ou não (a esta altura o público já desconfia que as histórias são baseadas em acontecimentos reais, porém o irmão mais novo, autor destas, insiste em dizer que são mera ficção). Na cena seguinte, nos deparamos com o irmão que acabara de rir, lendo e chorando compulsivamente no banheiro do trem. Somos arrebatados pelo real sentimento que os escritos desperta no personagem. Cenas aparentemente simples, como esta, sem diálogos, mas que dizem muito mais que qualquer palavra, acabam por revelar uma dificuldade do homem moderno em lidar com seus sentimentos, em expor suas fragilidades, até mesmo na frente de pessoas que se julga próximas, como seu próprio irmão.
Como num prenúncio do que viria, o cartaz de seu primeiro longa(cartaz está no começo do post), “Bottle Rocket”, tem uma frase que define toda obra. A frase era a seguinte: “They´re not really criminals, but everybody´s got to have a dream” ( eles não são exatamente criminosos, mas todo mundo precisa ter um sonho ), a frase de maneira irônica e sincera, resume bem a geração de Wes Anderson, que em meio a tantas incertezas do mundo globalizado, sem ideologias e heróis, precisa acreditar em algo, mesmo que esta crença faça sentido somente para seus amigos.