quarta-feira, 24 de março de 2010

“Tetro”, Francis Ford Copolla, 2009 (EUA)




Com “Tetro“, Francis Ford Copolla retorna ao topo de sua própria possibilidade criativa, e o faz em grande estilo. Após “Youth without youth“, seu primeiro filme em uma década, e filmando seu primeiro roteiro original desde “A conversação”, de 1974, o cineasta apresenta sua obra mais ousada e ambiciosa desde “Apocalipse Now” (1979). Sendo este, definitivamente o mais pessoal, maduro e sinceramente planejado, quadro a quadro.

Através da história do caçula que após 10 anos vai a procura do irmão mais velho, que ao tirar 1 ano sabático para escrever e se encontrar consigo mesmo, nunca mais deu notícias no tempo em que esteve ausente. A volta do irmão caçula, também em busca de alguém que nem ao menos sabem quem é, trás lembranças e revela segredos de família que se pretendiam permancer escondidos.

Copolla extrapola os limites do drama familiar clássico. Ao se apropriar de sua estrutura, recheado-a de rivalidade familiar, o diretor alcança a sinceridade reservada somente àqueles que através da necessidade de revelar e contar algo, são capazes de alcançar. Necessidade esta, que naturalmente impulsiona o diretor a revelar o sentido primordial da verdadeira arte de fazer filmes, a de contar histórias que não poderiam ser contadas através de qualquer outro meio, que não o cinema. Destaque para a brilhante atuação de Vincent Gallo (cujo pai na vida real, assim como o Tetro do filme, também foi um regente de sucesso).

Se é que ainda não foi lançado na América, o filme foi inadmissivelmente ignorado pela Academia, já que esta não o indicou a sequer um Oscar para a premiação ocorrida no dia 7 de março. “Tetro” foi auto-financiado pelo diretor e sua histórica produtora “Zoetrope” e nem ao menos tem previsão de estréia no Brasil. Filmado magistralmente em PB, nas ruas de Buenos Aires, “Tetro” promete ser a volta às origens de um gênio, que após tanto tempo afastado de si mesmo, se reencontra na simplicidade de sua personalidade mais profunda.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"Observe & Report", Jody Hill (EUA), 2009




Assim como em seu filme de estréia, o independente "Foot fistt ways", de 2007, Jody Hill (diretor e roteirista) explora um universo muito peculiar e contemporâneo, extraindo a comicidade das situações e personagens mais ordinárias.

Se no primeiro filme, tínhamos como pano de fundo a escola de taw ken do suburbana e decadente, em "Observe & report" temos o universo dos shoppings centers e todo seu impulso pelo consumo e ostentação da imagem. A começar pelo protagonista Ronnie, interpretado pelo rei da comédia atual, Seth Rogen. Um segurança de shopping center que adora armas, sofre de transtorno bipolar, possue uma mãe alcoólatra e sonha em se tornar um policial, assim como nos filmes.

Todas essas qualificações poderiam caminhar para um dramalhão cabeça, cheio de lições de moral, ou a mais uma comédia imbecil protagonizada por Rob Shneider, mas Jody Hill trata todos os personagens com tanto respeito, que acaba se revelando sensível aos dramas do norte-americano médio, tão caricaturizado como looser pelo cinema hollywoodiano.

Ronnie é o segurança do shopping que após o "ataque" de um tarado que adora mostrar sua "arma" para as clientes do shopping, vê aí sua chance de ser "alguém", prendendo tal ameaça.
Temos então Ronnie e sua gangue de seguranças (personagens ótimas que enriquecem muito a trama) confrontando a policia de verdade, personificada na pele de Ray Liotta, policial sério e desbocado que não poupará esforços para tirar Ronnie de seu caminho.

Apresenta-se assim, uma verdadeira reinvenção do mito do herói, uma adaptação aos dias atuais daquele que decide enfrentar seu destino e viver sua vida plenamente. Isso tudo com cameras lentas belíssimas e uma trilha sonora impecável, símbolo de uma geração pré-internet, que cresceu nos anos 90.

Através de seu olhar sobre esse universo, Jody Hill nos convida a rir de nós mesmos, para que não nos levemos tão a sério, já que no fim do filme, Ronnie, o herói, resolve enfrentar sua realidade, e encarar de frente seus problemas, temos uma sequência de planos onde o "quase policial" termina um "namoro", se reconcilia com o amigo que o traiu, conhece o verdadeiro amor, atira no peito do tarado (uma das cenas mais chocantes e ousadas dos últimos tempos), que corria nu através da praça de alimentação ao som de "where is my mind", do Pixies, e o entrega aos policias que o rejeitaram, dizendo com o peito estufado: "Eu não preciso de um distintivo para saber quem eu sou".

Ronnie é o porta voz de uma fatia da sociedade que não se prende aos rótulos e fantasias do mundo moderno que legitimam e dizem se voce é bom ou não pelas roupas que voce usa, ou cargo que ocupa. Pelo contrário, Ronnie e sua legião de seguidores brincam com essas fantasias da modernidade que tanto nos distancia de nós mesmos, nos encorajando a sermos aquilo que esquecemos (ou nem sequer sabíamos) que eramos: homens com chapéus engraçados.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"À procura de Eric", Ken Loach (UK), 2009




“À procura de Eric” fala sobre o acerto de contas com o passado, tão necessário a sobrevivência daqueles que passam a vida a fugir de si mesmos. O filme tem início com personagem principal, Eric Bishop, dando voltas em círculos numa rotatória, com seu carro. Uma cena de uma claustrofobia extenuante. Assim como na rotatória, Eric apenas anda em círculos em sua vida, sem nunca chegar a lugar algum. Estas são sucedidas por cenas cômicas e leves, de Eric com seus amigos, quando estes ainda achavam que Eric apenas “andava um pouco triste” e precisava que o fizessem rir.

Somo introduzidos a vida de Bishop, que entre a cerveja e o futebol com os amigos, enfrenta a rebeldia de seus enteados, 2 adolescentes filhos de sua segunda ex-mulher, que estão crescendo com uma referência paterna insconstante e desequilibrada, que ainda não superou o passado. Eric está sozinho, e ainda emocionalmente dependente de sua ex-mulher, Lily, com quem teve um filho 30 anos atrás.

Eric que já foi um grande fã de futebol, e do clube Manchester United, ainda idolatra o ex-jogador Eric Cantona, conhecido como “THE KING” pelos torcedores locais. Quando, numa de suas crises emocionais, temos Bishop em em seu quarto, oprimido pelos conflitos que o atormentam, conversando com um pôster do REI, se aconselhando com a figura-símbolo dos tempos de alegria, a fumar seu baseado solitariamente, até que Cantona, o REI em pessoa, o responde numa de suas perguntas, para sua enorme surpresa.

Sim, Eric Cantona (que interpreta a si mesmo, com altas doses de auto-ironia), aparece somente para ele, e claro, o fato de ambos possuirem o primeiro nome igual não é mera coincidência. Eric está a procura de si mesmo, e para isso terá Eric Cantona como mentor e “psicólogo”, que através de conversas francas e famosas citações em francês, aconselha e encoraja seu xará a tomar as rédeas de seu destino e se responsabilizar pelas escolhas tomadas no passado.

Para tanto, terá que, entre um baseado e outro compartilhado com seu amigo Cantona, enfrentar o medo de reencontrar a mulher que tanto amou há 30 anos, limpar os armários cheios de correspondências antigas e mágoas mal resolvidas, e por fim romper a distância que impossibilita o diálogo com seus enteados, que já apresentam sinais de que as pequenas aventuras juvenis oferecem sérios riscos ao que resta daquilo que usualmente chamam de família. Sendo esta, melhor representada por seus amigos, também carteiros, e que sem os quais não teria coragem para “colocar os braços em volta da mulher que ama”, quando esta está tão perto depois de tanto tempo.

A solução de conflitos no presente se mostram intimamente interligadas com o passado, no qual o pai o oprimia e sufocava em suas decisões, desencorajando-o para a vida e suas consequências, como ter um filho aos 20 anos.

O filme conquista unidade através da busca da verdade de cada situação apresentada, não importando se tal situação é irreal, absurda, comovente ou cômica.

Através da cena final, onde com a ajuda dos amigos, todos fantasiados e uniformizados com máscaras de Cantona, representando por assim dizer, suas diversas personalidades reprimidas, que acabam por atender ao chamado de seu insconsciente, que luta para se fazer ouvir e se libertar do passado e suas dores.

Ken Loach, acaba por fazer uma obra contra o individualismo, onde as pessoas se vêem como adversárias. Toda essa solidariedade que desencadeia o final do filme é perfeitamente sintetizada pela torcidade futebol, onde fica gritante o quanto somos mais fortes numa turma, do que seríamos sozinhos.

Para surpresa de Bishop, e do próprio Ken Loach, ao ser questionado sobre a jogada mais marcante de sua carreira, Cantona afirma ter sido um passe dificílimo que resultou num belíssimo gol de Giggs. Bishop então pergunta se não teve medo de que Giggs errasse o gol, para o que Cantona diz: “precisamos acreditar em nossos companheiros de equipe”.

Acredite também em Ken Loach, e confira seu mais novo filme, que abre a 33 Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Leve seus amigos.


P.S.: Esse texto foi especialmente escrito para o pessoal do "Clítoris express". Colocarei o link do texto no site, assim que este voltar ao ar.

Valeu galera!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

"Gran Torino", Clint Eastwood (EUA), 2008

Clint e sua cara cheia de vincos


Walt e Thao, construindo relações


Clint, aguardando o momento certo de agir.


Uma pequena obra prima do cinema.
Cada plano do filme fala como um quadro, têm-se a impressão de que o filme poderia ser contado através das fotografias, cena por cena.
A composição da paisagem fala por si só, os diálogos se apresentam como complementos do que já é dito, do que já transborda em cada fotograma.

Composição de planos esta, auxiliada pelos movimentos de camera, que de tão sutis e precisos, evidenciam a devoção do diretor para com o cinema puro, onde a técnica está tanto em prol da história a ser contada, que acaba por se dissolver em poesia. Tudo isso, aliadao à trilha sonora de Jamie Cullum, com direito a música tema interpretada pelo próprio Clint.

As relações entre as personagens pintam a obra principal. Desta troca silenciosa e sincera, Clint nos apresenta o mundo de Walter Kowalski, ou melhor, como essa figura quase mítica ,encarnação de todos os personagens da carreira do ator, estão dissolvidos em um só. Num velho, que procura espaço num mundo que mudou sem antes pedir permissão a seu habitante mais antigo. Sendo este, o primeiro dos muitos ecos de "Onde os fracos não tem vez", 2008, dos irmãos Coen.

Um filme que começa e termina com velórios, mas retrata muitas portas se abrindo. Temos um diretor muito consciente do fim de um ciclo, o término de uma era, onde somente o encontro entre o velho e o novo, entre Walter e Thao, são capazes de transformar o mundo. Temos muitas cenas onde nosso olhar é direcionado para a abertura de portas, do lado de dentro, como se junto dos personagens também recebêssemos as pessoas em nossa casa, em nosso repertório de imagens. São planos que clamam pelo encontro. Fronteiras entre vizinhos são quebradas, e uniões estabelecidas.

Quando Sue (em ótima performance de Ahney Her), afirma que gostaria que o pai fosse mais parecido com Walt, e este questiona a razão, a menina simplesmente afirma com ar de dúvida "because you´re american", Walt se pergunta o que isso significa. Nenhum dos dois sabem o que significa ser americano hoje em dia. Walter, até então americano, representante da velha guarda tradicional de homens que foram para a guerra (Coréia, 1951) e trabalhavam nas grandes montadoras da Ford, símbolo este, representado pelo carro que dá nome ao filme. Carro este, produzido e dirigido pelo personagem, da fábrica até sua casa. Marco da prosperidade norte-americana nos anos 50 e seu "american way of life" tão difundido mundialmente. Nos EUA de hoje, Walt vê o bairro, antes lar de trabalhadores americanos, ocupado por imigrantes Hmongs, negros, chineses e mexicanos.

Difícil não estabelecer um paralelo entre o personagem de Walter Kowalski, com o Stanley Kowalski de Tenessee Williams, em "Um bonde chamado desejo", romance de 1941 ,interpretado nos cinemas por Marlon Brando. Ambos são descendentes de imigrantes do fim do séx. XIX, mais especificamente de poloneses, são sucessores da geração que construiu as bases da nação que viria a vencer a Segunda Grande Guerra. Assim como Walt, Stanley fazia o tipo durão, patriota, republicano, dotado de uma ética própria e particular, alheio a tudo que lhe tira da rotina de trabalho árduo e pequenos prazeres com os amigos, seja o boliche para o segundo ou o bar para o primeiro.
Com a diferença de que o Kowalski de T. Williams fazia sentido no tempo-espaço que ocupava (anos 40), já o Kowalski de Clint tenta recuperar o espaço que um dia ocupou, nem que para isso precise alcançar a tão temida e ao mesmo tempo almejada, redenção.

Através da troca com Sue, e mais precisamente com Thao, que Walt se vê ainda como ser humano, como um tipo de alteridade tardia ou nostálgica, através do olhar desses dois jovens, Walt se vê obrigado a enfrentar sua existência tal qual ela se apresenta no presente. Desafia-se a estimular a última faísca de vida que lhe resta de um passado de dor e arrependimento.
Talvez por isso insista tanto em ensinar um ofício a Thao, jovem tímido e inexperiente, que vive sendo perturbado por seu primo e sua gangue. Walt, dá as ferramentas para que o jovem construa um mundo novo, um mundo onde Thao e sua família possam viver em paz, cultivando o pouco de identidade e verdade que faz dos EUA da era Obama, um país multicultural, que respeita e exalta as diferenças.

Como num túnel do tempo, Walt desejava poder, através de seu Gran Torino, 1972, voltar ao tempo em que podia simplesmente deslizar pelas estradas a beira-mar, sentindo a briza no rosto, com a segurança que o Estado lhe dá, e a constatação tardia da beleza que aqueles instantes proporcionavam.


sábado, 15 de agosto de 2009

PROIBIDO PROIBIR, Jorge Duran (Brasil, 2007), por Renato Couto

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Um retorno triunfal, através das mãos de um velho amigo (amigo velho, também, ás vezes), apresento uma reflexão sobre a juventude que parece crítica de cinema, ou será toda crítica um exercício de reflexão sobre a vida?
Renato Couto não dá as respostas, mas nos instiga a pensar: Quem somos estes que chamam Juventude?


Uma fase glamorosa, a juventude é o momento em que são decididos muitos dos caminhos que serão trilhados ao longo da vida. Talvez, por isso seja para muitos que vivem essa fase, um momento de angústias e de questionamentos na preocupação em se construir uma pessoa que se quer ser partilhada de uma aspiração por uma sociedade melhor.

Proibido Proibir (2007) foi também o lema adotado pelos estudantes em Maio de 68, quando jovens encontraram-se na formação da contra-cultura. Sendo assim, existe uma conexão entre aquela época e a que se passa no filme, porém de uma forma que expressa a alma jovem, incipiente na sua capacidade de mudar o mundo. No entanto, Proibido Proibir não se passa no mesmo ambiente de Os Sonhadores; o pais e o tempo são outros, e sendo assim, diferentes são os problemas que emergem dessa sociedade. O filme co-escrito e dirigido por Jorge Durán, chileno radicado no Brasil desde 1973, retrata o Rio de Janeiro do começo do século XXI, quando estudantes universitários de classe média vivem os conflitos para se firmar como indivíduos. Para essa classe privilegiada, é a oportunidade de viver a universidade, locus de conhecimento, porém numa relação de pertencimento que mantém o jovem afastado da realidade, fazendo-o habitar uma espécie de bolha.

Paulo (Caio Blat), estudante de medicina, representa um jovem não politizado, cético, que desdenha de movimentos estudantis e pensa que todo o governo tem o mesmo projeto de ˜foda-se”para o povo. Para viver, resguarda-se nas drogas e nas garotas e nessas plataformas estaria arquitetado seu plano de governo. León (Alexandre Rodrigues), um negro estudante de sociologia, apontado como o melhor da turma, que acredita na construção de projetos sociais como meio de reduzir as mazelas a que são expostas as classes pobres. São definidos um pelo outro como alienado e idealista respectivamente, moram juntos “num lugar quente, longe do mar, mas perto da faculdade e onde aluguel é barato”. Apesar dos times de futebol diferentes e outras desavenças, um considera o outro seu irmão do peito e gastam suas mesadas em livros e cd´s, perdem a chave de casa e escalam o muro para entrar pelos fundos.

Letícia (Maria Flor) é trazida por León como namorada, porém, no melhor estilo Jules et Jim, logo consolida-se a formação de um triangulo amoroso, quando Paulo demonstra-se também apaixonado pela nova amante do amigo. Letícia é uma estudante de arquitetura e seus passeios pela cidade permitem uma fotografia por lugares não populares do Rio, chamando a atenção para uma beleza envelhecida e mal preservada. As tardes, recheadas de discussões sobre política, sobre o amor e sobre a arte, são passadas juntas pelos três. As constantes mudanças de planos, como entre morar juntos ou realizar uma viagem para o exterior, mostra um futuro não definido e que permeia a mente do jovem frente as inúmeras possibilidades.

Quando Paulo aproxima-se de Rosalina, uma paciente com leucemia do hospital-escola onde estuda, a vida dos três estudantes mescla-se com a realidade e eles deixam aquela bolha. A partir desse momento, os três jovens descobrem as limitações de suas forças ao perceberem que médicos nem sempre poderão salvar vidas, que, a uma vez famosa beleza da cidade, transformou-se num _mar de favelas” e que uma classe dessa sociedade parece condenada a viver na pobreza e na violência. Diante de uma realidade que nada condiz com seus sonhos e os problemas de suas próprias relações amorosas, a vontade que eles tem é “de largar tudo”, talvez uma vontade de deixar de crescer e voltar a uma época quando estavam protegidos destas situações. Ao se depararem que _tudo está podre e eles que se fingiram de cegos para não ver_ a fuga torna-se inevitável.

Vista de fora e de cima, observada de um mirante, percebem aquela como a cidade que os construiu, e, bem como foram preparados, que agora eles tem como missão a construção dela. Juntos, mostram-se preparados para seguir o futuro como indivíduos, aptos a distinguir o bem do mal. De certa maneira, o mundo está mesmo em suas mãos e a fuga não é solução, já que o que aconteceu não pode e não quer ser esquecido. A esperança e a crença na bondade do homem surgem com a música, unindo-se ao final do filme, e prontas a ecoar no imaginário do espectador.

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer

quarta-feira, 18 de março de 2009

"O LUTADOR" (The wrestler), de Darren Aronofsky (EUA, 2008)




Darren Aronofsky, transforma a despretensão em sua maior pretensão. Recurso, este, que privilegiando seu astro em reconstrução, Mickey Rouarke, acaba por homenagear o cinema de autor, onde a forma de se contar a história diz mais que a história em si.
A história clichê de redenção de um astro decadente sai, para dar lugar a própria redenção do diretor e seu ator. Temos como resultado uma verdadeira obra de arte, onde a realização são maiores que seus realizadores. Onde o ser humano prevalece.
As escolhas do diretor deixam claro o quanto a prioridade era a intimidade com o ator, deixando-o livre para ser aquilo que precisa ser. Ao não lutar com seu ator, deixa-o livre para lutar. Sua câmeras parecem “perseguir” Mickey Roarke e seu Randy “The RAM”. O início do filme com seus cartazes, e áudios que relembram as glórias de um passado não tão distante, são interrompidas para que nos situemos no presente. Vemos Randy, sentado, cabisbaixo, logo após mais uma luta. Em seguida temos um plano sequencia, no qual já fica claro que o personagem é tudo, ele quem direciona nosso olhar, mas não para o que vê, e sim sobre si mesmo. O personagem é o objeto da cena, ele que preenche o quadro do início ao fim.

Grande parte da mídia impressa e até mesmo dos sites especializados em cinema supervalorizaram as coincidências entre personagem e ator. Como se fosse um renascimento de ambos, uma tentativa de darem a “volta por cima”, como se Rouarke tivesse abandonado a carreira de ator e tentasse voltar a ativa. Assim como Roarke nunca deixou de fazer filmes, mesmo enquanto arriscava-se como lutador de boxe profissional, o filme trata mais sobre os nocautes que a vida nos dá, do que aqueles que se experimenta em um ringue, seja ele de boxe ou luta livre.
Fosse apenas esse fato, ainda teríamos muitos argumentos para valorizar as coincidências entre as biografias do Mickey Roarke personagem e ator . Porém, o fato é que tanto o filme quanto a carreira do ator não contam uma história de redenção a medida em que refletem o quanto a vida que levamos é fruto de nossas escolhas, e o quanto podemos escolher entre fazer aquilo que faz sentido para nós num determinado instante, ou nos render àquilo que a sociedade espera que façamos e sejamos, mesmo que para isso soframos a dor do arrependimento.
Assim como Roarke, escolheu abdicar dos papéis de galã em Hollywood na passagem dos anos 80/90, para lutar boxe profissional, Randy também escolheu continuar lutando, mesmo após a passagem implacável do tempo. Um tempo que deixa muitas marcas, tão profundas que nem mesmo as incontáveis cicatrizes que Randy mostra em seu corpo, conseguem representar.

Assim como a maioria das pessoas que fazem escolhas, Randy possui muitos arrependimentos ao chegar ao 50 anos. Ninguém é considerado “looser” por ter sido um pai ausente ou marido irresponsável. São falhas consideradas humanas. Porém, diferentemente de uma maioria considerada "bem sucedida" pela mídia e/ou sociedade, que possue a desculpa ideal para a negligência que praticam, Randy é respeitado e rodeado de amigos no mundo em que vive. Respeito e carinho que recebe por ser aquilo que é, não por aquilo q tem. O "ser" substituindo o "ter", coisa rara em tempos onde o consumo da imagem deixa marcas na pele (Tanto Randy quanto a dançarina Cassidy, exibem e maculam seus corpos como mercadoria de consumo)

No mundo que construiu para si, onde quer que vá é recebido por amigos, e recebe destes um carinho tão sincero quanto o que um bom pai poderia vir a receber de seu filho. Pois o filme trata justamente disso, dessa busca do carinho perdido. O carinho da filha que abandonou e da esposa que nunca teve.
O que precisa ficar claro é que as tentativas de reconciliar com sua filha já adolescente e a entrega em um relacionamento pouco usual com uma dançarina-stripper, são frutos daquilo que deixara para trás, em troca do que construiu em sua carreira. Nada distante do empresário que após anos se dedicando à profissão, após uma crise de estresse se dá conta de que o dinheiro não é tudo e passa a olhar o mundo com outros olhos. A diferença é que Randy não conquistou dinheiro através de sua profissão, pelo contrário, trabalha e freqüenta academias durante a semana para poder lutar nos finais de semana. Nosso lutador conquistou muito mais que dinheiro, conquistou o carinho de amigos verdadeiros e principalmente fãs. Não é por menos a comparação de nosso astro com Jesus Cristo, Randy também se sacrifica em troca de nossa sobrevivência. A diferença é que Jesus não pediu nada em troca, nosso lutador pede apenas carinho.

A luta com Aiatolá nem foi idéia sua, mas o fez acreditar que algo a mais ainda poderia ser realizado, um possível retorno ao topo. Mas Randy acaba desistindo da luta, apenas aceita lutar novamente quando se vê sem identidade no mundo real, Mr. Razinsky, pai e amante já não fazem mais sentido, sucumbiram para que Randy THE RAM prevalecesse.
Cassidy, a dançarina e mãe quarentona que almeja criar seu filho na Flórida e que recusa a se apaixonar por Randy, também nega seu nome da vida real. Sendo conhecida nas ruas como Pam, Cassidy também corrige funcionário do clube de dança quando este se refere a ela no momento em que decide seguir nosso lutador em sua luta final, já que nesse momento, deixa de ser a dançarina e assume seu nome "verdadeiro", o nome das ruas, o da mãe que está apaixonada e que pretende mudar os rumos de sua vida.

Temos muitas cenas memoráveis, como aquela em que Randy, após o ataque do coração convence sua filha a sair com ele, e a chama para ir no "lugar preferido deles". Randy tenta resgatar os bons momentos que permanecem intocados em sua memória. Temos então, pai e filha, juntos em lugares bem amplos como o cais do porto, com direito a horizontes sem fim, pedidos de perdão e uma última dança. São cenas em locais enormes, com muito espaço a ser preenchido, galpões empoeirados e vazios sendo revisitados, como o coração de sua filha, e seu própio coração literalmente partido pelo tempo. Tentam preencher o que o tempo tratou de deteriorar. Para depois perceber que sua carne, já velha, não é o que possui de pior...infelizmente há certas coisas que o tempo não muda e nosso herói insiste em dar motivos para a culpa que sente.

No auge da narrativa temos Randy trabalhando horas extras como atendente da sessão de frios do supermercado do qual é funcionário, quando explode de raiva ao ser reconhecido por um cliente que afirma "reconhecê-lo de algum lugar, só que mais velho". Randy se cansa de ser um mero produto consumido pelo tempo, e após provocar profundo corte em seu dedo na máquina de cortar, sai pelos corredores sujando a cara de sangue e derrubando as prateleiras dos produtos a serem consumidos pelos clientes, estes, os mesmos que o consumiram quando jovens nos anos 80. Agora, já velho, descobre que as crianças não querem mais saber de nintendo...como ele mesmo diz em um dos diálogo memoráveis: "os anos 80 eram demais, aí veio o Kurt Cobain e estragou tudo".

Em sua luta final, que poderia se transformar num clichê de redenção e triunfo do herói, se transforma num épico às avessas. Vemos nosso lutador se esvair em sangue quase sem forças, e numa sequência rápida de quadros que se ospõem em sua magnitude, presenciamos o último salto de THE RAM, o salto para imortalidade do quadro, que mesmo sendo literalmente "rasgado" pelo personagem, se eterniza na escuridão da sala de cinema, momentos antes de ouvirmos Bruce Sprinsgteen dar início a belíssima música tema.

segunda-feira, 9 de março de 2009

"O CURIOSO CASO DE BENJAMIM BUTTON", EUA (2008), David Fincher





Fora o fato de ter me incomodado com algumas frases de efeito, que pareciam ter saído de livros de auto-ajuda e o final onde se afirma que "alguns pessoas dançam, cantam...jogam bola de gude", tinha gostado do filme, cheguei até a me emocionar, apesar de achar que isso aconteceu por estar mais sensível no dia, mas o que mais me incomodou foram as semelhanças com o filme de Zemeckis, "Forrest Gump".

Depois que descobri que ambos os filmes possuíam o mesmo roteirista, pesquisei na internet e comprovei que não estava sozinho em minhas impressões.rs
Com voces: "THE CURIOUS CASE OF FORREST GUMP".

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